NAS ENTRELINHAS DO TARIFAÇO
Não sou político. Tampouco especialista com colunas em jornais ou estudos em gabinetes de vidro. Mas vivi o suficiente entre conversas de deputados e senadores e cochichos de bastidores para desenvolver um faro. E esse faro, ultimamente, tem apitado.
Enquanto os olhos do país se voltam ao desenrolar judicial de Jair Bolsonaro, uma movimentação discreta — quase silenciosa — ocorre no tabuleiro internacional. O governo norte-americano, agora sob comando de Donald Trump, anunciou um conjunto de tarifas contra o Brasil. Mas o que parece retaliação generalizada esconde, nos anexos e exceções, um gesto político sutil.
O decreto presidencial de 30 de julho de 2025 declara o Brasil como ameaça extraordinária à segurança e economia dos Estados Unidos. Contudo, entre as tarifas elevadas até 50%, Trump excluiu alguns produtos — com critérios que merecem atenção.
Dos dez produtos mais exportados pelo Brasil aos EUA em 2024 — café, carne, suco de laranja, petróleo, aeronaves, produtos de aço, madeira e celulose, materiais de construção, máquinas e eletrônicos — ao menos quatro foram expressamente protegidos pela medida: suco de laranja, petróleo e derivados, aeronaves e celulose/madeira.
Além disso, café e carne — símbolos tradicionais do agronegócio brasileiro — ficaram de fora das isenções, mas de acordo com as negociações pode-se prever que serão transportadas para o grupo de passiveis de isenção.
Ora, quem conhece o mapa político-eleitoral do país sabe o que isso significa.
Os produtos protegidos por Trump coincidem, em larga medida, com os redutos mais fiéis ao bolsonarismo: o agronegócio do interior paulista (laranja), as cadeias de madeira e celulose no Norte, Centro Oeste e no Sul, o petróleo do Sudeste e a indústria aeronáutica com raízes no Vale do Paraíba. Esses setores não apenas sustentaram Bolsonaro politicamente — eles o promoveram ideologicamente.
Coincidência? Difícil crer.
Mais do que uma política comercial, trata-se de um aceno simbólico. Um gesto que prepara o terreno para um discurso: “Trump protege os aliados de Bolsonaro. Lula, ao contrário, rompe pontes.” A estratégia é clara: reforçar uma aliança internacional informal entre populistas de direita e reabilitar a imagem de Bolsonaro como perseguido por um sistema global progressista.
Setores da imprensa já começaram a ensaiar esse enredo. Sugerem que Lula, ao manter seu tom crítico contra Trump, atrapalha o diálogo e prejudica a economia nacional. A crítica não é casual. É semente — plantada agora para florescer na próxima campanha eleitoral.
Enquanto isso, o governo brasileiro parece distraído. Não reage com discurso estratégico, tampouco antecipa os riscos. Mas o tarifaço não é apenas uma estatística comercial. É uma narrativa sendo costurada com dados, diplomacia e silêncio — e com potencial para enfraquecer politicamente o presidente atual.
Às vezes, não é preciso megafone para gritar. Basta uma lista de isenções tarifárias, um gesto de Washington, e o mutismo conveniente de quem deveria estar falando.
A armadilha, ao que tudo indica, já está montada
[1] Engenheiro Agrônomo (UFCE), Especialista em Planejamento Agrícola (SUDAM / SEPLAN – Ministério da Agricultura), Pesquisador Sênior em Sistemas Agroflorestais (EMBRPA – aposentado), Doutor em Agronomia (ESALQ / USP)