CANTO DOS PÁSSAROS CALADOS
Moacir José Sales Medrado[1]
Já vivi madrugadas com cantos ao acordar,
Sabiá, tico-tico, canário e bem-te-vi a cantar.
Hoje, cedo da manhã quase não há pássaros em festa,
Os pássaros se ausentaram, só a saudade nos resta.
O vento passeia sem ter companhia,
Sem som de canário, sem melodia.
O tempo pergunta onde estão os sons,
Que vibravam nos galhos e davam tons.
[REFRÃO]
Uóôôô!
É o canto calado da extinção,
O eco vazio do que foi canção.
Cada espécie que some do chão,
É verso perdido na imensidão.
É silêncio gritando entre folhas secando,
É ausência do voo que vai se apagando.
O bicho que some, e ninguém mais vê,
É parte do mundo que deixa de ser.
Tem ave que canta em sonhos somente,
Tem bicho sumindo, tão lentamente.
E o homem nem nota, ou finge não ver,
Que a vida selvagem começa a morrer.
Se o som da manhã parar de tocar,
Quem há de nos guiar no despertar?
São eles que dizem se a mata respira,
Se o verde se vai ou se ainda se inspira.
[REFRÃO FINAL]
Uóôôô!
É o canto calado da extinção,
O eco vazio do que foi canção.
Cada espécie que some do chão,
É verso perdido na imensidão.
[FINAL]
Mas se a gente escuta com o coração,
Ainda há tempo, ainda há canção.
Basta cuidar, plantar, proteger,
Pro canto dos pássaros renascer.
[1] Engenheiro Agrònomo (UFCE), Especialista em Planejamento Agrícola (SUDAM / SEPLAN – Ministério da Agricultura), Pesquisador Sênior em Sistemas Agroflorestais (EMBRAPA – aposentado), Doutor em Agronomia (ESALQ / USP), Engenheiro da poesia.