A Caçada nas Sombras: Brasil entre Israel e Estados Unidos
Moacir José Sales Medrado[1]
Há países que escrevem a história. Há países que a sofrem. O Brasil corre o risco de ser apenas cenário, figurante de um enredo sombrio escrito em outras capitais.
A ponte com Israel queimou em chamas quando Lula ousou dizer que Gaza lembrava o Holocausto. A palavra virou estilhaço. Netanyahu reagiu como quem não perdoa: carimbou o presidente brasileiro como persona non grata. Desde então, o silêncio é pólvora suspensa no ar.
Washington, o império das contradições, veste a toga da democracia e aponta o dedo. Critica o Judiciário brasileiro por julgar Bolsonaro, enquanto em casa cala vozes que desafiam o dogma pró-Israel. Para eles, tudo é permitido. Para nós, nada.
E Israel não blefa. O Mossad é a sombra que aparece, golpeia e desaparece. Se um militante menor, irrelevante até, buscar refúgio em nossas terras, não será acaso: será isca. A caçada virá como pretexto, planejada a dedo — e não se limitaria a capturas silenciosas. Israel já mostrou que pode bombardear sem pudor qualquer lugar onde enxergue a sombra do Hamas, ainda que distante, ainda que em território estrangeiro.
A manchete já está pronta, como lápide antes do corpo: “Lula transformou o Brasil em refúgio de terroristas.” A direita aplaudirá, a mídia repetirá, o povo temeroso acreditará. Não haverá tanques nas ruas. Apenas palavras, afiadas como lâminas, atravessando a carne frágil da democracia.
Não é delírio, é sombra. Não é paranoia, é prenúncio. O Brasil não importará guerra alguma — será escolhido como palco. A questão é simples e terrível: aceitaremos ser figurantes em nossa própria tragédia?
[1] Engenheiro Agrônomo (UFCE), Cronista e Engenheiro da poesia.