O OVO, A GALINHA E A FLORESTA[1]
Moacir José Sales Medrado[2]
A discussão sobre a relação entre as florestas e a mudança climática parece um velho dilema filosófico: o que vem primeiro, o ovo ou a galinha? Há quem diga que as florestas são meras coadjuvantes no drama climático global, incapazes de influenciar de modo relevante um planeta cuja superfície é dominada pelos oceanos. Outros, mais céticos ainda, afirmam que a ênfase nas florestas tropicais — sobretudo na Amazônia — é exagerada e movida por interesses econômicos de países ricos, que gostariam de transformá-la em um “banco genético” e reserva estratégica para o futuro.
Mas quem conhece o pulso da Terra sabe que o argumento é raso. As florestas tropicais funcionam como imensos reguladores de energia e umidade. A Amazônia, por exemplo, gera e recicla até 50% da própria chuva que recebe, criando um “rio voador” atmosférico que distribui umidade para o centro-sul do Brasil e até o Prata. Reduzir seu papel à escala continental é ignorar o que a ciência chama de teleconexões climáticas: relações de causa e efeito que unem biomas e oceanos em uma teia de equilíbrio delicado.
As florestas boreais, por sua vez, exercem outro papel: refletem radiação solar devido à neve, armazenam carbono em solos gelados e, quando derretem, liberam metano — um gás muito mais potente que o CO₂. Ambas são indispensáveis, mas em escalas e mecanismos diferentes. A Amazônia é um sistema de resfriamento ativo; as boreais, um freio de emergência.
O equívoco de quem acusa “ingerência estrangeira” é confundir soberania com isolamento. Defender a Amazônia não é ceder território — é reconhecer que ela é parte do sistema que mantém o planeta habitável, inclusive para quem vive fora dela. Preservar florestas não é atender a um capricho ambientalista, mas proteger o próprio regime de chuvas, a agricultura e a estabilidade térmica de que dependem todas as economias.
O ovo e a galinha, afinal, coexistem. O clima molda as florestas, e as florestas, por sua vez, regulam o clima. Negar essa reciprocidade é fechar os olhos para o fato de que já estamos quebrando o ciclo natural — e que, diferentemente das galinhas, não temos outro planeta onde pôr nossos ovos.
REFERÊNCIAS E LEITURAS COMPLEMENTARES
IPCC, Sixth Assessment Report (AR6) – https://www.ipcc.ch/report/ar6
Nobre, C. et al. (2025, 19 de março). Mudanças Climáticas e Sustentabilidade na Amazônia. Enciclopédia de Pesquisa Oxford de Ciência do Clima. Recuperado em 13 de novembro de 2025, em https://oxfordre.com/climatescience/view/10.1093/acrefore/9780190228620.001.0001/acrefore-9780190228620-e-978
Spracklen, D.V., et al. “Observations of increased tropical rainfall preceded by air passage over forests.” Nature, 2012.
MapBiomas 2023 – Relatório de desmatamento e uso do solo. https://mapbiomas.org
FAO, The State of the World’s Forests 2022. https://www.fao.org/forests
[1] Texto concebido por Moacir Medrado, com apoio do ChatGPT (OpenAI) para revisão e refinamento linguístico.
[2] Engenheiro Agrônomo (UFCE), Especialista em Planejamento Agrícola (SUDAM / SEPLAN – Ministério da Agricultura), Pesquisador Sênior em Sistemas Agroflorestais (EMBRAPA – aposentado), Doutor em Agronomia)