MOACIR MEDRADO - MOGA
Um pouco do que tenho sido além do físico
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VIDA DE FLOR

 

Fagundes Varela (1841-1875)[1]

 

Porque vergas-me a fronte sobre a terra?

— Diz a flor da colina ao manso vento —

Se apenas das manhãs o doce orvalho

Hei gozado um momento!

 

Tímida ainda, nas folhagens verdes

Abro a corola à quietação das noites,

Ergo-me bela, me rebaixas triste

Com teus feros açoites!

 

Oh! deixa-me crescer, lançar perfumes,

Vicejar das estrelas à magia,

Que minha vida pálida se encerra

No espaço de um só dia!

 

Mas o vento agitava sem piedade

A fronte virgem da cheirosa flor,

Que pouco a pouco se tingia, triste,

De mórbido palor.

 

Não vês, oh brisa? lacerada, — murcha

Tão cedo ainda vou pendendo ao chão,

E em breve tempo esfolharei já morta

— Sem chegar ao verão?

 

Oh tem pena de mim! deixa-me ao menos

Desfrutar um momento de prazer,

Pois que é meu fado despontar n'aurora

E ao crepúsc'lo morrer!...

 

Brutal amante não lhe ouviu as queixas,

Nem às suas dores atenção prestou,

E a flor mimosa retraindo as pétalas

Na tige se inclinou.

 

Surgiu n'aurora, não chegou à tarde,

Teve um momento de existência só;

A noite veio, — procurou por ela,

Mas a encontrou no pó.

 

Ouviste, oh virgem, a legenda triste

Da flor do outeiro e seu funesto fim,

— Irmã das flores, à mulher às vezes —

Também sucede assim.

 


[1] Importante poeta brasileiro da segunda geração do Romantismo; patrono da cadeira n. 11 da Academia Brasileira de Letras (ABL)

FAGUNDES VARELA
Enviado por MOACIR MEDRADO em 19/12/2025
Alterado em 28/01/2026
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