MOACIR MEDRADO - MOGA
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A Democracia do Resgate e do Descrédito

Moacir José Sales Medrado[1]

Escrevo como cidadão e democrata. E é justamente por compromisso com a democracia que rejeito a explicação fácil que atribui a corrupção a um único campo político. No Brasil, ela acompanha o poder quando faltam controles, transparência e instituições capazes de resistir à conveniência do momento.

 

A ditadura militar não foi menos corrupta; foi menos rastreável. Sem imprensa livre, com repressão e fiscalização limitada, a corrupção prosperou protegida pelo silêncio. Autoritarismo não combate desvios — apenas os oculta. O resultado é a impunidade institucionalizada.

 

Na democracia, os escândalos emergem com mais nitidez, mas isso não significa que sejam tratados com mais honestidade. Ao longo dos governos civis, de diferentes partidos, repetiu-se um padrão: a governabilidade passou a depender menos do convencimento público e mais da troca silenciosa. Reformas, políticas e orçamentos foram negociados em ambientes opacos, onde a linha entre articulação legítima e corrupção se tornou difusa.

 

Com o tempo, algo ainda mais grave se consolidou. Escândalos deixaram de ser enfrentados como questão de interesse público e passaram a ser ativos estratégicos. Informações comprometedoras são guardadas para o momento oportuno: servem como moeda de troca, chantagem indireta ou pressão por favores — quase sempre traduzidos em emendas, cargos ou proteção. Quando todos sabem algo sobre todos, instala-se uma estabilidade perversa. Não é harmonia entre poderes; é imobilismo por medo mútuo.

 

Esse pacto tácito ajuda a explicar silêncios ensurdecedores. Situações que, aos olhos do cidadão comum, exigiriam apuração rigorosa esfriam subitamente. Não por respeito ao devido processo, mas porque a engrenagem do poder funciona à base da contenção recíproca. Ninguém puxa o fio para não ser enredado por ele.

 

Há, porém, um fator decisivo que fecha o círculo: no presidencialismo brasileiro, qualquer prefeito, governador ou presidente que não detenha maioria em sua casa legislativa torna-se refém dela. Governa sob ameaça permanente. Ou aceita a pauta da maioria, ou a maioria cria crises artificiais, investigações seletivas, bloqueios orçamentários e pedidos de afastamento. A fiscalização legítima dá lugar à coerção política.

 

Nesse ambiente, o orçamento vira resgate, a Constituição — constantemente emendada conforme a maioria de ocasião — perde densidade normativa, e a política deixa de ser projeto coletivo para se tornar negociação de sobrevivência. A democracia não cai de uma vez. Ela se desgasta por dentro, normalizando o inaceitável.

 

A lição é dura e clara: corrupção não se combate com moralismo seletivo, nem com autoritarismo, nem com maiorias oportunistas. Combate-se com transparência radical, rastreabilidade do gasto público, controles independentes e limites reais ao poder de constranger. Sem isso, não há direita nem esquerda honestas — apenas facções administrando segredos.

 

E uma democracia assim pode não morrer de golpe. Ela vai apodrecendo, aos poucos, até morrer de descrédito — quando ninguém mais confia, ninguém mais defende. Assim sendo vamos estudar bem os curriculos dos candidatos nos quais iremos depositar nossa confiança nas próximas eleições.

 


Engenheiro Agrônomo, Doutor em Agronomia, especialista em Planejamento Agrícola; escritor.

MOACIR MEDRADO
Enviado por MOACIR MEDRADO em 22/12/2025
Alterado em 22/12/2025
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