AHASVERUS E O GÊNIO
Castro Alves (1847 – 1871)
Sabes quem foi Ahasverus?... - o precito,
o mísero judeu, que tinha escrito
na fronte o selo atroz!
Eterno viajor de eterna senda...
Espantado a fugir de tenda em tenda
fugindo embalde à vingadora voz!
Misérrimo! Correu o mundo inteiro,
e no mundo tão grande... o forasteiro
não teve onde... pousar.
Co’a mão vazia -viu a terra cheia.
O deserto negou-lhe -o grão de areia,
a gota d’água -rejeitou-lhe o mar.
D’Ásia as florestas -lhe negaram sombra
a savana sem fim -negou-lhe alfombra
o chão negou-lhe o pó!...
Tabas, serralhos, tendas e solares...
Ninguém lhe abriu a porta de seus lares
e o triste seguiu só.
Viu povos de mil climas, viu mil raças,
e não pôde entre tantas populaças
beijar uma só mão...
Desde a virgem do norte à de Sevilhas
desde a inglesa à crioula das Antilhas
não teve um coração!...
E caminhou!... E as tribos se afastavam
e as mulheres tremendo murmuravam
com respeito e pavor.
Ai! Fazia tremer do vale à serra...
Ele que só pedia sobre a terra
-Silêncio, paz e amor! -
No entanto à noite, se o Hebreu passava,
um murmúrio de inveja se elevava,
desde a flor da campina ao colibri.
«Ele não morre» a multidão dizia...
E o precito consigo respondia:
-«Ai! Mas nunca vivi!»-
O gênio é como Ahasverus... solitário
a marchar, a marchar no itinerário
sem termo de existir.
Invejado! A invejar os invejosos.
Vendo a sombra dos álamos frondosos...
E sempre a caminhar... sempre a seguir...
Pede u’a mão de amigo -dão-lhe palmas:
Pede um beijo de amor -e as outras almas
fogem pasmas de si.
E o mísero de glória em glória corre...
Mas quando a terra diz: -«Ele não morre»
Responde o desgraçado: «Eu não vivi!...»