MOACIR MEDRADO - MOGA
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A TERRA NÃO DISCURSA: O QUE OS CONFLITOS INTERNACIONAIS ENSINAM AO AGRO BRASILEIRO

Moacir José Sales Medrado[1]

O mundo volta a falar em guerra como se fosse assunto novo, quando, na realidade, guerra nunca é nova. Apenas muda de endereço.

Rotas comerciais se fecham, o preço do petróleo sobe como febre e o seguro marítimo encarece. E, de repente, o que parecia distante chega ao agro brasileiro na forma de um fertilizante mais caro, de um contrato mais incerto, de um câmbio nervoso. Os números ajudam a dimensionar o que está em jogo: cerca de 20% a 25% do custo de produção de grãos como a soja está atrelado a fertilizantes importados. E importamos mais de 85% do potássio que consumimos, sendo que um terço desse total, até recentemente, vinha de um só país: a Rússia, hoje no centro de tensões geopolíticas que redesenham mapas e fluxos comerciais.

O Brasil se orgulha — com razão — de ser celeiro do mundo. Exporta soja, milho, carne, açúcar, alimentando continentes e sustentando superávits. Somos o maior exportador líquido de alimentos do planeta. Mas há uma pergunta que precisa ser feita com franqueza: por que quando falamos em soberania parecemos não incluir a superação de nossa dependência de insumos vindos de zonas de conflito? Soberania não deve servir apenas como retórica nacionalista, mas tratar-se de estratégia concreta.

Quando potássio e nitrogenados cruzam oceanos em navios que passam por regiões tensionadas, a produtividade brasileira passa a depender de decisões tomadas em gabinetes estrangeiros. Não apenas o preço do petróleo sobe: o frete marítimo pode quadruplicar em curtos períodos, e o risco de sanções cruzadas transforma o planejamento de safra em exercício de alta incerteza. Um produtor rural no Mato Grosso, ao comprar insumos com entrega para meses à frente, está, na prática, fazendo uma aposta na estabilidade de mares e governos distantes.

 

Quando a logística interna trava, o custo da ineficiência vira imposto invisível ao produtor. A falta de armazenagem adequada nas fazendas, por exemplo, força a venda no pico da safra, quando os preços estão mais deprimidos. O "custo Brasil" — combinação de gargalos portuários, dependência rodoviária e complexidade tributária — corrói nossa competitividade justamente nos momentos em que os preços internacionais mais nos favorecem.

Em tempos de instabilidade global, a neutralidade diplomática é virtude — mas a neutralidade produtiva não. Ou o país fortalece sua autonomia estrutural, ou continuará vulnerável aos humores do mercado internacional.

O Itamaraty precisa agir com pragmatismo: falar baixo, negociar alto, preservar mercados. Mas é preciso mais do que reação: uma diplomacia agrícola ativa, que diversifique origens de suprimentos e que simultaneamente abra novas frentes para a proteína animal e os biocombustíveis em mercados asiáticos e africanos. Nossos adidos agrícolas devem ser sentinelas comerciais, e o Estado brasileiro precisa compreender que política agrícola vai muito além de crédito rural. É política industrial de fertilizantes, com investimento em rochas fosfáticas nacionais e tecnologias como os bioinsumos. É também a conclusão de obras estruturantes, como a Ferrogrão, capaz de mudar a lógica logística do Centro-Oeste, reduzindo custos e emissões.

Os conflitos lá fora revelam o que sempre esteve aqui: somos gigantes na exportação e frágeis na dependência. O agro brasileiro é forte, mas força sem planejamento vira sorte. Sorte é um péssimo insumo para quem precisa plantar, colher e entregar com regularidade.

Talvez este momento de perturbação mundial seja um convite à maturidade. Não para discursos inflamados, mas para decisões estruturais. É certo que o mundo continuará instável, e quem alimenta o mundo não pode viver de improviso. A agenda da segurança alimentar global e da transição energética coloca o Brasil em posição ímpar — mas essa posição só será ocupada se houver planejamento de longo prazo, com investimento em ciência, infraestrutura e inteligência de mercado.

 

Talvez por isso o campo seja uma escola de paciência. Ele nos ensina que força verdadeira não faz barulho. Que raízes profundas sustentam tempestades. Que quem alimenta o mundo precisa mais que aplauso — precisa estratégia. E estratégia, no agro, começa no solo — na sua nutrição, na sua preservação — e se estende até os portos, na eficiência com que o fruto do trabalho brasileiro chega ao mundo.

E quando o ruído das armas cansar de si mesmo, quando as manchetes mudarem de assunto, a terra continuará ali — com sua respiração lenta, com sua promessa verde. Porque a terra não discursa. A terra sustenta.



[1] Engenheiro Agrônomo (UFCE), Especialista em Planejamento Agrícola (SUDAM / SEPLAN Ministério da Agricultura), Doutor em Agronomia (ESALQ/USP); Pesquisador Sênior em Sistemas Agroflorestais (EMBRPA aposentado)

MOACIR MEDRADO
Enviado por MOACIR MEDRADO em 01/03/2026
Alterado em 01/03/2026
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