Moacir José Sales Medrado[1]
Nasci em Fortaleza, perto do mar. Minha infância foi marcada pelo vento salgado, pelo barulho constante das ondas e pela paisagem aberta das praias do Nordeste. Durante muito tempo pensei que aquele era o retrato natural da minha terra.
Mas, em diversas ocasiões, inclusive ainda criança, tive a oportunidade de me encontrar com uma paisagem muito diferente da que conhecia à beira-mar: a Caatinga.
Para os olhos de um menino acostumado ao verde dos coqueiros e ao azul do oceano, aquela terra parecia estranha. Os troncos eram claros, os galhos retorcidos e o chão pedregoso refletia o sol forte do sertão. À primeira vista, tudo parecia seco demais, silencioso demais.
Mas bastaram alguns encontros com aquela paisagem para eu começar a perceber que ela guardava um segredo.
Na Caatinga, a vida não desaparece. Ela apenas espera.
Os sertanejos que me recebiam sabiam disso muito melhor do que eu. Observavam o céu, o comportamento das aves, o florescimento de certas plantas. Havia sempre alguém comentando que determinados sinais indicavam se o inverno seria bom ou ruim. Para mim aquilo parecia quase um mistério — como se a natureza estivesse conversando com quem soubesse escutá-la.
Então vinham as primeiras chuvas.
Não precisava chover muito. Bastavam algumas pancadas para que o sertão começasse a mudar. Presenciei isso no Ceará, na Paraíba e em Sergipe. Troncos que pareciam mortos brotavam de repente. Pequenas folhas verdes surgiam do chão seco. Flores apareciam onde antes havia apenas galhos nus.
Era como se a terra tivesse despertado.
Lembro-me de olhar aquilo com espanto. A mesma paisagem que, dias antes, parecia árida e silenciosa se enchia de vida em pouco tempo. Os pássaros voltavam a cantar, os insetos reapareciam e o sertão ganhava cores inesperadas.
Com o passar dos anos, comecei também a compreender outra lição da Caatinga. O sertanejo não vive contra aquela natureza. Vive com ela. Colhe frutos, busca mel, caça quando é preciso — mas quase sempre com uma parcimônia que nasce da própria necessidade de sobrevivência.
Naquele ambiente, aprender a respeitar o ritmo da terra sempre foi condição para continuar vivendo nela.
Aos vinte e um anos deixei o Nordeste. A vida me levou primeiro para a Amazônia e depois para o Sul do Brasil. Conheci florestas densas, rios imensos e paisagens muito diferentes daquelas do sertão.
Mas a Caatinga nunca saiu da memória.
Talvez porque ela tenha me ensinado cedo uma lição que poucos lugares ensinam com tanta clareza: a vida nem sempre se mostra na abundância. Às vezes ela se esconde, espera e resiste.
E quando a chuva finalmente chega, o sertão revela aquilo que sempre esteve ali.
A Caatinga acorda.
E, com ela, acordam também as lembranças de quem aprendeu a olhar o mundo com mais paciência.
[1] Engenheiro Agrônomo (UFCE), Especialista em Planejamento Agrícola (SUDAM / SEPLAN – Ministério da Agricultura), Doutor em Agronomia (ESALQ / USP)