ENTRE O AMOR E O ÓDIO[1]
Moacir José Sales Medrado
No íntimo humano travam-se combates,
Entre afetos que a alma não domina:
Amor que chama à luz e à verdade,
E ódio que fere e a vontade inclina.
Senhor, ensinai-nos a discernir,
O bem que salva e o mal que seduz;
Que não troquemos o vosso porvir,
Por sombras que imitam vossa luz.
O mal se veste de forma brilhante,
E o bem se esconde em humilde véu;
E a alma, incauta e vacilante,
Erra na terra e se perde do céu.
Dai-nos, ó Cristo, vosso olhar,
Que vê além da aparência vã;
Para que saibamos bem amar,
E rejeitar o que engana em afã.
Mandastes amar até os inimigos,
Mistério alto que excede a razão;
E repelir afetos antigos,
Quando afastam de Vós o coração.
Senhor, que o amor não nos cegue mais,
Nem nos conduza à perdição;
Fazei-nos livres dos falsos sinais,
Que prendem a alma na ilusão.
Há amor que fere e se diz bondade,
E há negação que é pura caridade;
Quem ama mal, na verdade,
Abre caminho à própria vaidade.
Se o ódio santo nos faz viver,
E o falso amor nos leva a cair,
Dai-nos coragem para escolher,
E a Vossa verdade seguir.
Amar é elevar ao sumo bem,
Não prender ao erro disfarçado;
Quem salva a alma, ama também,
Ainda que doa ser recusado.
[REFRÃO FINAL – TODOS]
Ó Deus eterno, fonte do amor,
Purificai nosso querer;
Que em todo afeto, seja o Senhor
A causa, o fim e o viver.
E quando o mundo nos confundir,
Com seu disfarce enganador,
Dai-nos a graça de discernir:
Só Vós sois digno de amor.
[1] Texto inspirado no sermão da Primeira Sexta-Feira da Quaresma (1644), de Padre Antonio Vieira com base no tema “Diligite inimicos vestros”(século XVII, domínio público). Texto Fonte: Sermões, Padre Antonio Vieira, Erechim: Edelbra,1998.
Adaptação poética de Moacir J. S. Medrado, com apoio de inteligência artificial.