OBSERVATÓRIO AGROFLORESTAL - Resenha Diária - Bioma Mata Atlântica - 25/03/2026
Referência (ABNT)
SILVA, Luana Daviny dos Santos. Funcionalidade ecológica de sistema agroflorestal no Mato Grosso do Sul. 2023. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Ciências Biológicas) – Universidade Federal da Grande Dourados, Dourados, 2023. Disponível em: https://repositorio.ufgd.edu.br/jspui/bitstream/prefix/6414/1/LuanaDavinydosSantosSilva.pdf.
Objetivo do trabalho
Avaliar a funcionalidade ecológica de um Sistema Agroflorestal (SAF) localizado em Ivinhema, Mato Grosso do Sul, utilizando indicadores de estabilidade, resiliência e confiabilidade para analisar o grau de restauração da área e o retorno de seus processos ecológicos naturais.
Metodologia
Abordagem: Estudo de caso com avaliação quantitativa e qualitativa.
Protocolo de avaliação: Utilizou o Marco para Avaliação de Sistemas de Manejo de Recursos Naturais Incorporando Indicadores de Sustentabilidade (MESMIS).
Coleta de dados:
Fitossociologia: todos os indivíduos arbóreos foram amostrados para análise de riqueza (S), diversidade (H’), equabilidade (J’), densidade, altura, grupos sucessionais e síndromes de dispersão.
Serapilheira: coletada em duas estações (10 amostras de 1m²).
Banco de sementes: 20 amostras de solo (20x20cm, profundidade de 10cm), monitoradas por 6 meses.
Chuva de sementes: 15 coletores de 1m² suspensos, com coletas mensais por um ano.
Análise dos dados: Comparação com cenários de referência (fragmentos de Floresta Estacional Semidecidual) conforme Piña-Rodrigues et al. (2015), atribuindo pesos de 1 a 3 para cada indicador.
Resultados
O SAF apresentou 449 indivíduos arbóreos, distribuídos em 44 espécies e 17 famílias, com 86% de espécies nativas. As famílias Fabaceae (33%) e Anacardiaceae (10%) foram as mais representativas.
O sistema atingiu 23 dos 36 pesos possíveis na avaliação MESMIS, indicando uma funcionalidade ecológica intermediária (63% do cenário ideal).
Pontos fortes (peso 3): Diversidade de espécies arbóreas (H’ = 3,493), Equitabilidade (J’ = 0,918), número de indivíduos por grupo sucessional (42% pioneiras, favorecendo a sucessão) e Ciclagem de nutrientes (33% de espécies fixadoras de nitrogênio, da família Fabaceae).
Pontos críticos (peso 1): Riqueza de espécies nativas (38 espécies), densidade de indivíduos (449), altura média dos indivíduos (3,81 m), riqueza da chuva de sementes (6 espécies) e riqueza do banco de sementes (16 espécies).
Indicadores intermediários (peso 2): Serapilheira (7,2 kg/ha), atração de fauna (47% zoocoria) e diversidade de estados sucessionais (50% pioneiras).
Conclusões
O SAF encontra-se em um estágio intermediário de funcionalidade ecológica, com boa diversidade funcional e de espécies, mas com indicadores estruturais (densidade, riqueza) ainda abaixo dos fragmentos de referência.
A estabilidade e resiliência da área são promissoras, principalmente devido à alta diversidade e à presença de fixadores de nitrogênio.
A confiabilidade (capacidade de sustentação a longo prazo) é o atributo mais defasado, com baixa riqueza de chuva e banco de sementes, o que demanda monitoramento contínuo.
O estudo reforça que SAFs em estágios iniciais podem conciliar produção com recuperação ecológica, mas necessitam de enriquecimento com espécies nativas de estágios sucessionais mais avançados.
Pontos Fortes
✔ Aplicação rigorosa do protocolo MESMIS, que integra diferentes dimensões ecológicas.
✔ Combinação de indicadores estruturais (fitossociologia) com funcionais (serapilheira, chuva de sementes).
✔ Uso de cenários de referência bem definidos, permitindo uma avaliação comparativa robusta.
✔ Abordagem inovadora ao avaliar um SAF não apenas como sistema produtivo, mas como um neoecossistema em restauração.
Limitações
✔ A amostragem para o banco de sementes (20x20cm, 10cm de profundidade) pode subestimar a riqueza de espécies com sementes maiores ou localizadas em camadas mais profundas.
✔ Ausência de análise de atributos físico-químicos do solo, que complementariam os dados de ciclagem de nutrientes.
✔ O estudo não aprofunda a relação entre os indicadores ecológicos e a produtividade agrícola do SAF, aspecto fundamental para agricultores familiares.
Contribuições e Implicações
Fornece um protocolo replicável para monitoramento de funcionalidade ecológica em SAFs, especialmente no bioma Mata Atlântica (Floresta Estacional Semidecidual).
Demonstra que SAFs jovens (10 anos) já podem alcançar níveis intermediários de estabilidade e resiliência, contribuindo para a restauração de áreas degradadas em Mato Grosso do Sul.
Evidencia a importância de espécies fixadoras de nitrogênio (Fabaceae) como elemento-chave para a ciclagem de nutrientes e o sucesso da restauração.
Os resultados fornecem subsídios para políticas públicas de incentivo a SAFs que conciliem produção, segurança alimentar e restauração ecológica.
Ficha Técnica
Autora: Luana Daviny dos Santos Silva
Título: Funcionalidade ecológica de sistema agroflorestal no Mato Grosso do Sul
Instituição: Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD)
Ano: 2023
Área: Ciências Biológicas – Ecologia da Restauração – Sistemas Agroflorestais
Tipo de Estudo: Estudo de caso com abordagem quali-quantitativa e uso do protocolo MESMIS
Principais Resultados: O SAF atingiu 23 de 36 pontos no MESMIS, demonstrando funcionalidade intermediária, com bons indicadores de diversidade e ciclagem, mas com estrutura (riqueza, densidade) e processos de regeneração (chuva/banco de sementes) ainda em desenvolvimento.
Link: https://repositorio.ufgd.edu.br/jspui/bitstream/prefix/6414/1/LuanaDavinydosSantosSilva.pdf