MULHER – BLUES DAS ACORRENTADAS
[Verso 1]
Ela acorda antes do sol nascer
Põe o mundo inteiro pra sobreviver
Carrega filho, fome e patrão
E ainda sorri pra esconder solidão
[Verso 2]
Na fábrica fria, no canavial
No escritório rico ou no barraco desigual
Sempre disseram: “teu lugar é servir”
E o mundo aprendeu depressa a consumir
[Refrão]
Mulher... escrava do mundo cruel
Acorrentada entre a terra e o céu
Mas quando ela cai, cai junto a nação
Porque ela sustenta os escravizados na mão
Mulher... ventre, sangue e pão
Última esperança da civilização
E mesmo ferida, cansada e só
Ainda levanta quem a vida é um nó.
[Verso 3]
Tem mulher vendida por religião
Tem mulher calada pela tradição
Tem mulher coberta da cabeça aos pés
E outras nuas na TV por poucos, ajustados, réis
[Verso 4]
Tem medo em casa, medo na rua
Tem salário baixo pra luta tão crua
Tem corpo julgado, voz sem valor
E homem chamando controle de amor
[Ponte]
Na guerra enterram seus filhos primeiro
No campo trabalha o dia inteiro
Na seca anda léguas atrás de água e chão
E na riqueza continua sem divisão
[Verso 5]
Mas houve povos perto do mar
Onde mulher mandava plantar
Velhas guardiãs da memória e do fogo
Mães conduzindo o destino do povo
[Verso 6]
Na África antiga, em tribos do sul
E entre povos nativos sob céu azul
A vida girava na palma da mão
Da mulher feita origem da criação
[Verso 7]
Talvez exista um lugar afinal
Onde mulher não seja degrau
Mas princípio, caminho, abrigo e luz
A força primeira que o universo conduz
[Refrão Final]
Mulher... não nasceu pra corrente não
Nem pra carregar sozinha a civilização
Se o mundo insiste em fazê-la sofrer
O mundo inteiro apodrece sem perceber
Mulher... raiz da vida no chão
Rio profundo do coração
E quando a história enfim florescer
Talvez seja ela quem vai nos salvar outra vez.