Há um equívoco confortável em reduzir a disputa comercial entre Brasil e Estados Unidos a uma mera briga de planilhas. Tarifas são apenas a ponta visível de um iceberg cuja base se move no terreno turvo da percepção política. O que está em jogo, por exemplo, há muito, não é o preço do aço, mas o preço da narrativa que se fixará na mente do eleitor.
O atual impasse, contudo, não é estático. Ele é gerido ativamente por ambos os lados como um termostato: cada parte regula a temperatura do conflito conforme sua conveniência eleitoral.
Mas, ao contrário do que sugere a análise superficial, o prolongamento não é uma via de mão única que beneficia apenas os EUA ou a oposição brasileira. É um jogo de soma variável, onde cada semana de conversas inconclusivas produz vencedores e perdedores provisórios.
De um lado, o governo Lula encontrou no impasse um combustível precioso. A narrativa de resistência à "pressão estrangeira" é um dos poucos discursos que unificam sua base heterogênea.
Quanto mais Washington exigir, mais Lula pode vestir a pele do estadista que não se curva. O prolongamento, para ele, é a chance de provar que não é subserviente — um ativo político que ele não abrirá mão sem custo.
Do outro lado, o bolsonarismo respira o ar rarefeito do impasse. Cada dia sem acordo é uma nova oportunidade de martelar a tecla: "Lula não sabe negociar; o Brasil perde mercado; o presidente é fraco". A proximidade afetiva com Trump transforma qualquer exigência americana em profecia auto-realizável.
Mas há um terceiro ator que frequentemente é tratado como espectador, e que é, na verdade, o mais pressionado: Donald Trump.
Trump não pode esperar. Sua persona política foi construída sobre a entrega de resultados rápidos e espetaculares. Um acordo comercial com o Brasil seria um troféu a ser exibido em seus comícios.
Um impasse que se arrasta, por outro lado, expõe sua fragilidade: parece que ele não tem poder para fechar o negócio. Para Trump, o tempo é um adversário tão cruel quanto Lula. Ele precisa de vitórias antes do superterço eleitoral americano. Portanto, se o impasse se prolongar por meses, quem mais perde visibilidade não é Lula, mas a própria imagem de "negociador-mor" de Trump.
É aqui que a análise se complexifica. O jogo narrativo desdobra-se em três frentes, e não em duas:
Narrativa A (bolsonarista): "Lula é o entrave. O acordo existe; ele é que não consegue fechá-lo."
Narrativa B (lulista): "Os EUA estão interferindo na soberania brasileira para influenciar nossa eleição."
Narrativa C (realista): "O impasse é sintoma de que nenhum dos dois presidentes quer ceder, porque ambos temem mais o acordo do que o conflito."
Essa terceira narrativa é a mais incômoda, e por isso a menos dita. Um acordo rápido tiraria de Lula o discurso de resistência e de Trump o troféu midiático. O acordo perfeito — aquele que beneficia a economia real — exige que ambos abram mão de seus respectivos ganhos políticos imediatos. E é justamente essa renúncia que nenhum dos dois está disposto a fazer.
Há ainda uma variável concreta, e não apenas discursiva, que o debate frequentemente ignora: o custo econômico do tempo.
Enquanto as tarifas permanecem, o agro e a indústria brasileira sangram em ritmo constante; nos EUA, o setor manufatureiro que depende de insumos brasileiros também aperta o cinto. Esse custo real, diferentemente da narrativa, não espera as eleições. Ele corrói bases de apoio nos dois países. O empresário que perde mercado não se importa com quem "ganhou" a disputa narrativa; ele quer resultado. E, na ausência de resultado, sua paciência se esgota com o governo de plantão.
Portanto, a pergunta central não é apenas "a quem interessa prolongar?", mas "quem suporta o custo do prolongamento sem sangrar até o osso?"
A resposta é cruel: nenhum dos dois.
Lula suporta o desgaste econômico, mas ganha combustível político.
Trump suporta o desgaste de imagem, mas ganha tempo para extrair concessões.
O bolsonarismo suporta a angústia de ver a economia piorar, mas ganha munição para atirar.
O único ator que perde em todas as projeções é o cidadão comum — brasileiro e americano — que paga mais caro pelo que importa e assiste, perplexo, a dois líderes que preferem vencer no tabuleiro da opinião pública a vencer na vida real.
A verdadeira arte da diplomacia, neste caso, seria transformar o impasse em acordo antes que ele se transforme em ferida aberta. Mas para isso, seria necessário que Lula e Trump admitissem um fato constrangedor: ambos estão mais confortáveis na briga do que na solução.
E, enquanto esse conforto mútuo persistir, o impasse continuará — não porque interessa a um lado específico, mas porque interessa, paradoxalmente, a ambos os lados ao mesmo tempo.
O problema é que, em política, quando dois adversários concordam em adiar a paz, geralmente é o povo quem paga a conta do adiamento.
O verdadeiro centro da questão não é saber se haverá acordo, mas compreender que, para os protagonistas, o impasse já se tornou mais útil do que a solução. E enquanto a utilidade do conflito superar a urgência da economia, as tarifas continuarão no lugar — não por falta de inteligência dos negociadores, mas por excesso de inteligência política de ambos os lados.